Rizomas frescos de araruta e tigela com polvilho branco puro sobre mesa de madeira no Recôncavo Baiano

Muito antes do trigo dominar os supermercados, a araruta (Maranta arundinacea) era base da alimentação brasileira. Conhecida pelos indígenas como aru-aru (farinha de farinha), ela virou mingau de bebê, biscoito brevidade e remédio caseiro. Hoje, depois de quase desaparecer, ela volta a ganhar destaque nas cozinhas sem glúten e nos projetos de agricultura familiar da Bahia.

1. A importância histórica da araruta na alimentação brasileira

De 7.000 anos de cultivo indígena ao Brasil Colônia

Estudos arqueológicos mostram cultivo de araruta nas Américas há pelo menos 7.000 anos. Nativa da Amazônia e das matas tropicais da América do Sul, ela se espalhou por todo o Brasil, do Nordeste ao Sul.

Os indígenas detinham o maior conhecimento: usavam a fécula branca contra diarreia e o sumo contra picada de insetos, e o rizoma fresco em ferimentos. Os portugueses disseminaram a planta como fizeram com a mandioca, e no Brasil Colônia virou alimento de crianças, idosos e convalescentes por ser de fácil digestão. Sua fibra também era usada para dar qualidade especial ao papel.

2. Por que seu cultivo perdeu espaço?

A própria literatura explica: a fécula de araruta foi substituída por amidos de cadeia produtiva estabelecida como mandioca e milho. Por sua extrema rusticidade, a planta tem ampla distribuição, mas sem cadeia produtiva organizada.

Na indústria, o polvilho de araruta foi trocado por farinha de trigo, milho e mandioca. Sem estrutura de beneficiamento e com pouco conhecimento técnico, muitas famílias deixaram de plantar. O IBGE chegou a registrar apenas 1.141 toneladas produzidas no Brasil em 1996.

3. Quem está trazendo a araruta de volta? Exemplos concretos

 Mãos de agricultor segurando rizomas de araruta recém-colhidos na roça

Colheita de rizomas frescos de araruta no Recôncavo Baiano. Tradição mantida por agricultores familiares como o Sr. Raimundo da Araruta, em São Felipe, um dos maiores produtores da Bahia.

Sr. Raimundo da Araruta – O maior produtor da Bahia, em São Felipe

No coração do Recôncavo Baiano, Raimundo da Cruz Santos, conhecido como Raimundo do Braço Preto, agricultor familiar do município de São Felipe, é reconhecido como um dos maiores produtores de araruta da região.

  • Início na cultura: Começou com apenas 22 ou 23 mudas recebidas por meio de orientação técnica da EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola) por volta de 2009.

  • Produção: Expandiu o cultivo para dezenas de milhares de pés e cerca de 10 tarefas de terra plantadas, tornando-se referência no resgate e comercialização da fécula de araruta.

  • Processamento: Ele e sua família cultivam, colhem e processam o rizoma da planta para a fabricação artesanal do polvilho (fécula).

Esse caso foi registrado pela Revista Cultivar (2011) como São Felipe/BA sendo o maior produtor de araruta da Bahia, e pelo Jornal Grande Bahia (2013) dentro das ações da EBDA para resgatar a cultura em Cruz das Almas. É a prova viva de que o resgate não é discurso, é roça plantada.

Embrapa – Projeto ativo com destaque global na FAO em 2026

A Fazendinha Agroecológica Km 47, conduzida em parceria entre Embrapa Agrobiologia, PESAGRO-RIO e UFRRJ desde 1993, segue como âncora de projetos de transferência de tecnologias e extensão em agroecologia e produção orgânica, recebendo cerca de 1.800 visitantes por ano.

O principal projeto atual é o ConservaIn – Conservação in situ/on farm de recursos genéticos vegetais e interação com a conservação ex situ. Em outubro de 2025, ganhou destaque global no site da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), com financiamento de US$ 198.716 (cerca de R$ 1 milhão) do Fundo de Repartição de Benefícios. O projeto está ativo desde 25 de junho de 2023 no portal da FAO, atende diretamente 400 famílias e 20 comunidades em 10 estados, incluindo a Bahia, nos 5 biomas brasileiros.

Projeto Ararutando – Valorizando Saberes Ancestrais no Ceará

Em Vieira dos Carlos, Trairi (CE), a comunidade resgatou a planta que estava praticamente esquecida. O projeto “Ararutando: Valorizando Saberes Ancestrais”, da Associação dos Agricultores Familiares do Assentamento Várzea do Mundaú, surgiu quando o jovem agrônomo Breno Veríssimo, formado pela Unilab, inscreveu a araruta em edital da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco.

O impacto foi direto: crianças com intolerância ao glúten e dificuldade de digestão voltaram a se alimentar com a farinha local, e vários alimentos tradicionais ganharam novamente importância.

4. A preservação de variedades tradicionais e conhecimentos populares

Processo artesanal de lavagem e extração do polvilho de araruta

Processo artesanal de beneficiamento da araruta: lavagem, ralagem e decantação para extração do polvilho puro. Técnica tradicional preservada no Recôncavo Baiano.

O Brasil tem cultivares de importância como Comum, Creoula e Banana, sendo a Comum a de melhor qualidade de fécula. São rizomas claros de 10 a 25 cm que exigem saber popular para colher na hora certa.

Projetos como o ConservaIn e a experiência do Sr. Raimundo preservam não só a semente, mas o modo de fazer: a extração da fécula, a secagem ao sol, o ponto do biscoito brevidade. É o que a FAO chama de conservação in situ – feita na roça, pelo agricultor guardião – integrada à ex situ nos bancos de germoplasma da Embrapa.

5. As perspectivas para o futuro da araruta no Brasil

O futuro não é voltar ao passado, é diversificar. A araruta é oficialmente uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), reconhecida por seu valor nutricional e baixo potencial alergênico. Com preço mais alto que amidos comuns no mercado internacional, há interesse crescente da indústria sem glúten.

Para o Recôncavo, a perspectiva é transformar o que era subsistência em renda: polvilho puro, biscoitos, mingaus e agora mudas selecionadas para novos plantios.

Veja também: Se você quer usar na cozinha, confira nosso guia prático: Quanto de araruta usar no lugar da farinha de trigo? Tabela e erros comuns


Quer fazer parte desse resgate na sua roça?

A araruta é uma planta rústica e muito produtiva no Recôncavo Baiano e em regiões de clima quente e úmido, com solo leve e bem drenado. No Nordeste, o plantio é feito tradicionalmente de setembro a dezembro, no início das chuvas. Como se propaga por rizomas, começar com material selecionado faz toda a diferença na brotação e na produtividade.

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Plante tradição, colha futuro.

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Araruta da Bahia compartilha conteúdos sobre polvilho puro de araruta, cultivo de mudas, farinhas e ingredientes naturais. Seu trabalho reúne produtos e materiais educativos para quem deseja conhecer melhor a araruta e explorar possibilidades de cultivo e uso na alimentação. No blog, apresenta informações ligadas a esses temas com uma abordagem acessível e prática. A marca também oferece infoprodutos digitais educativos, ampliando o acesso a conhecimentos sobre araruta, ingredientes naturais e cultivo.

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